Discurso
(Cecília Meireles)
 

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão
do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão
os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas
cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a
indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que
algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que
venha alguém gostar de mim?

Midi: Allegro

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