Isso é bem coisa de criança!
(Pricila Lini)
Setembro de 2004.


De todos os mistérios do mundo o que mais me intriga, são os questionamentos das crianças na famosa fase do “por quê” com o seu rol de derivados como: “o que é?”, “como é?” e uma infinidade de outras interrogações que fazem muitos adultos corarem.
Henry estava nessa fase, descobrindo o mundo. E sua tia em pânico, pois nem sempre era fácil responder o que é uma bomba-atômica, o que acontece depois que uma pessoa morre ou como dois Papais Noéis poderiam estar em um mesmo shopping ao mesmo tempo...
Mas um dia, uma dúvida em especial encheu de ternura a tia do Henry.
Pois assim aconteceu: Voltando do trabalho, em época de Natal, a tia Cat parou no sinal. No canteiro da avenida, ela encontrou um bichano, magrinho, o pobrezinho, que caso ninguém se compadecesse de seu estado crítico, viria a ter um fim. Filhotinho ainda, todo branquinho, ela juntou-o para dentro do carro. Depois de uma visita a um centro de animais, e das providências sanitárias tomadas, adotou o bichano para a alegria de Henry. Acontece que a tia Cat tinha mais uma gata que estava prenhe, a qual a chagada do intruso nada agradou.
Como a empatia entre o gatinho e o menino foram instantâneas, Henry, então na responsabilidade de seus cinco anos, pediu à tia que lhe desse o bichinho que ele haveria de cuidar. E assim, após consultar à sua irmã, tia Cat o fez.
Crescia depressa o bichano, sob os cuidados caseiros e ração de qualidade. Em suas brincadeiras com seu pequeno dono, entremeava-se na cortina branca, escondendo-se e deixando aparecer apenas os verdes olhinhos. Era vivo e esperto, porém era também muito afeito aos afagos e carinhos. Dormia todo enroscado em um cesto, e em certo ponto, Henry e seu gatinho ficaram bastante parecidos.
Acontece que, como todos sabem, não apraz aos gatos permanecer em um espaço tão restrito como um quintal, e conforme cresceu, o bichano começou a explorar as cercanias. Uniu-se aos outros gatos da vizinhança, e passava parte do dia nas traquinagens típicas dos felinos. Mas assim que chegava o fim da tarde, recolhia-se para casa como faz um filho obediente.
Assim que percebeu que o gato estava a passear pelos muros e telhados, tia Cat aconselhou que castrassem o bichinho, uma vez que ao vagarem pela rua, os gatos sofrem toda sorte de maldades e judiarias. Porém, sob protesto dos familiares, sua sugestão foi refutada, uma vez que judiaria maior ainda seria castrar o bichinho. E a “boemia” do gato prosseguiu.
Num sábado de clima frio e céu azul - daqueles que não têm nuvem alguma – algo estranho ocorreu. Naquele dia Henry estava inquieto e ansioso, e nenhum brinquedo lhe agradava. Pulava do sofá para a cadeira, se enfadava da cadeira e ia para o quintal, chamava pelo gato a toda hora e queria sair procurá-lo. Sua mãe lhe tranqüilizou, dizendo que como sempre, antes do anoitecer o gatinho estaria de volta. Mandou Henry para o banho, enquanto isso ela prepararia sua merenda.
Em meio ao banho, Henry ouviu seu gato a miar na porta do banheiro. Apressou-se o mais que pode, saiu com o cabelo ainda meio ensaboado, e viu que seu gatinho não estava bem. Seu olhinho não brilhava e ele tinha expressão de medo – daquele jeito que só as crianças sabem desvendar o que querem os animais. Então o bichano se pôs a miar mais alto e tremia muito. Ligou para tia Cat – ela saberia lhe dar uma reposta do que estava ocorrendo com seu amiguinho. Ela prontamente lhe atendeu e disse que em um instante estaria lá.
Chegando a casa de Henry, tia Cat ficou muito espantada. O gato estava a expelir líquido e passava mal. Enrolou o bichinho em uma toalha, pôs Henry no banco de trás do carro e seguiu a uma clínica veterinária. Sabia que era em vão, mas tinha de mostrar ao sobrinho que nunca se pode desistir.
No consultório, o veterinário analisou que, o que o gato expelira se tratava de pedaços de carne com veneno, e que alguém fizera uma maldade com o amigo de Henry. Ele teria em média mais uma hora, hora e meia de vida.
Tudo isso foi dito apenas à tia Cat, que antes de entrar na sala do doutor, tomou o cuidado de pedir que a recepcionista da clínica distraísse o garotinho mostrando uma jaula de hamsters e um aquário repleto de peixinhos coloridos.
Restou a ela pegar o bichinho, já muito quieto e esmaecido, pôr de volta no carro, e contar a verdade a Henry em um ambiente mais familiar. O menino, muito inteligente, parecia já saber a gravidade do acontecido, estava certo que seu companheiro estava em perigo.
No caminho de casa ele ficou calado, apenas a alisar o pelo branco e macio do gato, ajeitando de quando em quando a toalha para que ele não tremesse mais, porque segundo ele: “quando a gente treme é porque tem frio”.
Em casa, tia Cat sentou na varanda colocou o sobrinho no colo, este sempre com o gato, e se pôs a explicar:
- Henry, lembra quando uma vez você estava a puxar o rabo do cachorro, e eu lhe disse que aquilo era maldade, que maltratar bichinhos é uma coisa muito feia?
- Lembro sim, tia. Mas foi ele que latiu primeiro para mim!
- Pois bem, bichinhos não raciocinam. Eles pensam, mas não raciocinam. E se o Totó latiu para você aquela vez, é porque ele estranhou a você e estava a se defender. Assim também era o bichano, que miava pelas redondezas para chamar suas “namoradas”... Isso pode ter incomodado alguma pessoa, que muito malvada, ao invés de vir até aqui para lhe avisar que seu gatinho a incomodava, resolveu fazer uma crueldade, para que o mimi não mais a perturbasse. E por isso, resolveu montar uma “armadilha” para o gatinho, e pôs veneno em um pedaço de carne para ele comer. Vou lhe contar: o médico encontrou carne com veneno naquele líquido que o gatinho perdeu. Isso quer dizer que daqui a alguns minutos, ele – e afagou o gato – vai nos deixar.
- Tia, meu gato vai morrer? É isso? – E seus olhos encheram d’água.
- Sim meu anjo, seu gatinho vai morrer...
Henry se pôs a abraçar o gato, e falar o quanto gostava dele, conversava com seu amigo, e este entendia, era certo que entendia tudo o que seu dono falava. Disse que o “bisa” ia cuidar dele e dar ração todo dia pra ele lá no céu, que é para onde as pessoas vão quando morrem. Se as pessoas vão, gatos também devem ir...
E os olhinhos do gato fecharam, seu corpinho ficou mole e frio. E o mais estranho, era que se notava claramente que a carinha do gato estava serena, talvez porque compreendeu tudo o que Henry lhe quis dizer.
Cat deixou o sobrinho junto de seu amigo, e foi conversar com a irmã. Ambas decidiram que Henry escolheria onde seria enterrado o gato. Deixaram-no livre para que expressasse sua tristeza e chorasse o quanto quisesse.
E assim que o menino entrou, de olhos inchados e vermelhos, perguntou o que se faz depois que alguém morre.
- Nós enterramos – disse tia Cat – quer escolher um lugar bem bonito para pôr o corpinho dele.
Sem pensar muito, ele respondeu:
- Tia Cat, vamos enterrar lá onde você encontrou ele!
E assim fizeram.
Numa solenidade que juntou os três a mais alguns transeuntes da movimentada avenida, enterraram o gato – ainda envolto na toalha – no canteiro onde meses atrás tia Cat o resgatou.
- Não teve jeito né bichinho? Tentei te salvar, mas a rua de qualquer maneira tinha que te levar. – Essas foram as palavras de Cat, que serviram como discurso fúnebre.
De volta pra casa, propuseram a Henry que fossem à sorveteria, ao boliche ou ao parquinho para que ele se distraísse. Mas ele não queria ir a nenhum desses lugares. Pelo retrovisor, tia Cat reparou que ele olhava para o céu o tempo todo:
- O que está procurando, querido?
- Olha ele lá... – e apontou com o dedinho para uma nuvenzinha, branquinha como seu amigo, sozinha na imensidão do céu azul e limpo. – Ele já está no céu, e está olhando pra mim!
Ainda pelo espelho, tia Cat sorriu para ele:
- Sim, ele está.
E ficou feliz em saber que no coração dele não havia amarguras, e que ele tinha uma força e uma capacidade de recuperação muito maiores do que ela poderia esperar.
- Tia Cat?
- Sim...
- Se as maçãs nascem da macieira, as laranjas da laranjeira, as goiabas da goiabeira e assim por diante...
- Então os nenês nascem da nenezeira?
- Nesse momento tia Cat agradeceu – ao mesmo Deus que levou o gatinho para o céu – por ter um sobrinho tão esperto como Henry...

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